Eu tinha frio. Muito.
A escuridão tornara-se impossível, mas era um obstáculo que eu não conseguia atravessar ou contornar por cima. Ela dominava-me.
Há quanto tempo estava neste estado? Minutos? Horas? Dias?
Não conseguia encontrar nenhuma forma de voltar ao meu corpo, de me voltar a mexer, porém, a morte nunca mais vinha e isto estava a começar a deixar-me louca. Não conseguia ver, tocar ou falar. O meu cérebro devia estar desconectado do resto do corpo.
Não me doía nada, apenas não me encontrava! Mas sabia que estava frio, como se estivesse dentro de um congelador há mais de um século.
Nunca desejei tanto a minha Morte como naquela altura. A minha mente vagueava sem me encontrar e era difícil andar às escuras.
Mas, pelos vistos, este pesadelo não iria demorar muito mais, visto que o batimento do meu coração começava a perder forças, já faltava pouco para me ir embora desta vida.
Estaria preparada para deixar todos os que me amavam e todos os que eu amava? Não. Não estava, certamente.
Os meus pais e amigos, o meu cão, a minha casa, o meu barco, o mar! Thik tinha-me avisado que não devia partir. Devia ter esperado mais tempo, mas naquela altura, demonstrei uma faceta, muito escondida na minha mente: uma adolescente irresponsável que preferia fugir às responsabilidades do que enfrenta-las. Sabia, agora, que não tinha sido preciso arriscar de tal modo. Nunca fui assim. Sempre assumi os meus erros por mais embaraçosos que fossem. O que se tinha passado? Onde tinha a cabeça? Não sei, não sei! O pânico já tomava conta da minha consciência… Quero viver, porquê eu? O que fiz? Será que isto acontecia a todos os adolescentes que saíam de casa por causa de uma crise emocional que não queriam partilhar com os pais? O mais estúpido é que nem viva com eles! Vivia sozinha com o meu Black (cãozinho), o que me torna ainda mais irresponsável perante a gravidade da situação.
No meio de toda esta tagarelice mental, ouvi um som que não fazia parte daquele momento monstruoso. Eram passos com uma batida forte nas poças de água que se formavam no piso, já anteriormente molhado, seguidos de uma respiração ofegante… Quem seria?
Apenas me apetecia levantar as pálpebras e espreitar para ver quem era louco ao ponto de ir caminhar para um lugar como aquele. Andaria à minha procura? O que queria?
De repente, os passos pararam, para voltarem a investir, desta vez com mais rapidez em minha direcção. Tinha medo. Seria a morte que vinha em forma humana como muitos mitos diziam?
Tentei outra vez, sem sucesso, encontrar as minhas pernas e obrigá-las a correrem. Não consegui, o túnel que me levava de regresso ao meu corpo era demasiado escuro para ser atravessado sem luz, e eu não tinha luz.
Ouvi o meu nome:
--Tess!
Não podia! Aquela voz, tão minha conhecida. Quando pronunciou o meu nome era como se estivesse à minha procura durante muito tempo… Irradiava um gota de alívio no meio de um mar de angústia e frustração.
A voz chegou-se mais perto, questionando:
-Tess, consegues ouvir-me? Quando disse isto, algo escaldante tocou na minha mão prendendo-a. Se me mexesse, tiraria dali a mão imediatamente. Estava quente de mais!
Transformada num sussurro a voz dizia:
--Não, por favor! Tess, não me deixes, não me deixes!
O poder dela era tão grande que parecia que estava a sufocar. Queria acalmar aquela voz, reconfortá-la dizendo que estava bem e para não se preocupar. Queria que ela se acalmasse, voltando a ser aquela melodia espectacular, aquela voz de deus grego, de anjo. Mas os meus lábios não se moviam, e as minhas pálpebras estavam demasiado cansadas para abrirem, permanecendo o meu espírito na escuridão.
No meio disto, o chão desapareceu por baixo de mim, como se tivesse desaparecido ou evaporado. A única coisa que me segurava, agora, eram uns braços fortes, mas ao mesmo tempo muito quentes.
Não tive tempo para gritar, protestar, ou exigir que aquela coisa quem em queimava a pele, me largasse.
A chuva continuava, com mais força, fazendo-se ouvir por cima da respiração dele. Os passos eram rápidos, como se fugíssemos de algo assustador. Não sei quanto tempo me mantive sustentada por aqueles braços, porque na escuridão, o tempo já não era contado…
Continuava com frio, gelada, mesmo após a chuva ter parado.
Agora a respiração dele era mais regular e os passos mais lentos e suaves, como se o monstro que andasse à nossa procura tivesse ido procurar outra presa. Porém eu continuava sem ver e falar, e o meu espírito continuava perdido naquele grande túnel, sem saber por onde seguir.
Senti o ambiente mudar. A chuva já não caía e não existia humidade, logo, como poderia sentir tanto frio, e continuar congelada?
Os braços pousaram-me novamente no chão e ouvi os passos a afastarem-se.
“Não! Não vás! Tira-me daqui! Tenho frio! Por favor!” Gritava o meu inconsciente como se ele, por ventura, pudesse ouvir.
A solidão regressou e o frio aumentou. Logo agora, que ele estava aqui porquê que tinha de se ir embora ?
Não ouvi os passos silenciosos que voltavam na minha direcção, por isso continuava tão angustiada e o pânico dominava-me.
Alguma coisa tirou o casaco que estava em meu redor, fazendo com que eu ficasse irritada. Já tenho frio, porquê que me tiras o casaco? Apeteceu-me gritar. Um grito de fúria e rebeldia. Mas esta ideia desapareceu assim que algo quente envolveu as minhas costas, num abraço forte, permitindo-me relaxar.
As mãos dele eram mais suaves do que alguma vez foi possível. Parecia que ele tinha medo de me partir. Nem queria imaginar o aspecto que tinha naquele momento.
Queria abraçá-lo também e dizer “Obrigada” por ele estar aqui e por ter vindo à minha procura.
O Calor. Como era bom.
Podia sentir a respiração regular dele perto da minha testa, um pouco mais acima. Ele cheirava incrivelmente bem. Cheguei-me mais àquela fonte de calor, com o objectivo de, mais tarde conseguir mexer-me. Ele deve ter notado o que eu queria, porque mal pensei em faze-lo, ela já tinha arrastado o seu corpo de maneira a que o meu ficasse mais quente.
--Assustaste-me sabias? – Questionou, sendo esta uma pergunta retórica, dado o motivo pelo qual eu ainda não conseguia falar.
--Nunca mais voltas a sair sem me avisares. Sabes o quanto eu fiquei preocupado? Sabes o quanto significas para mim Tess? – A voz dele parecia veludo, cetim de tão ternurenta que era. Dizendo isso, uma das mãos que estava nas minhas costas fazendo pressão para que eu não fugisse, veio de encontro à minha face a fim de fazer uma leve carícia.
“Desculpa”. Não queria tê-lo feito sofrer, eu amava-o. “Não foi de propósito.”
Ele deu-me um beijo na testa e depois suspirou. A mão que me tinha feito uma carícia, voltou para as minhas costas envolvendo-me, como se fossem duas cordas de aço. Já o meu corpo, continuava imóvel.
--Não vou a lado nenhum até recuperares os sentidos. - prometeu – Mas fica boa rápido, porque tenho que dizer aos teus pais que estás bem.
O quê? Ele tinha contado aos meus pais? Nesta altura já nada era impossível, e acho que até os meus avós que viviam na Florida sabiam que eu tinha desaparecido.
--Eu estou aqui. – murmurou.
E nisto o momento tornou-se tão perfeito que eu apenas queria dormir, enquanto ele fazia festinhas no meu cabelo, ainda molhado por causa da chuva.
E foi mesmo isso que aconteceu. Adormeci, ainda com medo de não voltar a acordar.
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